Após as quatro indicações de O Agente Secreto ao Oscar desse ano, como era de se esperar, percebi uma minoria barulhenta tentando vender a ideia de que o cinema brasileiro “faz muito filme de ditadura”. A afirmação demonstra, além de uma gigantesca ignorância acerca da filmografia de nosso país, a relação colonial que boa parte dos brasileiros tem com a própria cultura, reconhecendo a sua existência apenas quando há uma validação estrangeira que faça isso primeiro. A recente (e incomum) visibilidade internacional de Ainda Estou Aqui e, agora, de O Agente Secreto poderia explicar essa falsa sensação de que os dois títulos, separados por apenas um ano, bastariam como parâmetro definitivo do estado atual da produção cinematográfica nacional. Porém, basta olhar para países vizinhos, como a Argentina e o Chile, para percebermos um volume muito maior, há décadas, de filmes sobre seus regimes militares, sem que isso se torne a síntese de seus cinemas. No Brasil, essa simplificação preguiçosa só prolonga os mesmos preconceitos de sempre, reduzindo nossa produção a estigmas sociais e temáticos, e é por isso que Kleber Mendonça Filho trata a Ditadura Militar como um trauma sem contexto que, aos poucos, vem sumindo da memória coletiva. O que resta são seus efeitos: a paranoia, o medo e a naturalização da violência, num passado que ainda assombra silenciosamente o nosso presente.
A obra se estrutura a partir de fragmentos que raramente se organizam de forma coerente, assumindo uma lógica narrativa mais próxima do funcionamento da memória humana do que da progressão clássica de um filme. Dessa forma, o longa avança por meio de uma coletânea de situações que começam, mas são interrompidas, de informações sem confirmação formal e de personagens que nem sempre têm uma “função narrativa” atrelada a si. Por isso, o diretor deliberadamente se recusa a oferecer explicações retroativas que organizem o caos do que estamos assistindo, e cada cena passa a servir como um vestígio de um tempo distante, ao qual só temos acesso pelo que sobreviveu: fitas cassete desgastadas, recortes de jornais e alguns relatos contaminados pela imprecisão da lembrança. A própria forma do filme é condicionada por essa ausência de registros, de modo que a história fique sujeita ao apagamento e nada possa ser confiado como um testemunho definitivo dos fatos.
É nesse terreno de caos e incertezas que a paternidade se destaca como o âmago do longa. A grande maioria dos personagens se define, de algum modo, pela relação com um filho ou com uma figura paterna. Marcelo retorna ao Recife para reencontrar seu filho e para buscar algum documento que prove a existência da própria mãe; o executivo Henrique Ghirotti está sempre acompanhado do filho, como se a presença dele fosse uma garantia de que sua dominação será perpetuada; até Augusto e Bobbi, os matadores de aluguel contratados para assassinar o protagonista, são padrasto e enteado, encarnando uma paternidade improvisada que se sustenta no legado de seu “empreendimento familiar”. Mesmo com tantos pais e filhos, tanto no campo dos mocinhos quanto no dos vilões, nenhuma dessas relações é sadia. A paternidade, no filme, é um vetor de transmissão de traumas e macetes para sobreviver num país marcado pela violência institucional e, em vez dos pais protegerem seus filhos desse cenário revoltante, eles acabam por introduzi-los a ele, seja pela herança direta do poder, seja no aprendizado de como se esconder e desconfiar de tudo e de todos.
Por isso, Marcelo morre sem a chance de narrar sua história. Toda a trajetória do personagem parece “não levar a nada” e, em vez do terceiro ato trazer a justiça de um confronto final, tudo que temos é o apagamento completo do protagonista. O filme sequer mostra a cena de sua morte, optando por reduzi-la a uma fotografia em preto e branco de seu cadáver num jornal, numa imagem indistinta e descartável, cuja única função é comprovar a manchete que a acompanha. O filho, por sua vez, cresce sem lembranças do pai e incapaz de preencher as lacunas deixadas por essa história interrompida. O desfecho é propositalmente anticlimático porque reconhece a impossibilidade de dar voz às tantas vítimas anônimas da Ditadura Militar, ou de lidar de forma tão tardia com suas consequências. O Agente Secreto, assim, se encerra como um comentário sobre legados incompletos, sobre pais que desaparecem antes de transmitir suas vivências e sobre filhos condenados a conviver com o vazio do que não foi dito a eles. O que persiste, ao final, não é uma memória plena, seja ela justa ou não, mas o esforço eterno de impedir que o esquecimento prevaleça.