Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Direção —

Gêneros —

Ano — 2025

Entre a dor de perder um filho e a necessidade de seguir em frente, Hamnet (2025) encontra na arte uma tentativa de ressignificar a vida.

Em 1596, William Shakespeare perdeu o filho Hamnet, morto aos onze anos, e pouco tempo depois escreveu Hamlet, peça onde um filho é visitado pelo fantasma do pai e passa a viver sob o peso dessa ausência. É difícil saber até que ponto a perda da vida real influenciou a escrita da peça teatral, mas não se pode negar que, por trás de uma das tragédias mais famosas da dramaturgia, houve uma dor íntima e real que motivou sua criação. O cinema frequentemente retorna a esse tipo de narrativa em que fantasmas assombram os vivos, às vezes de forma literal, outras vezes pela permanência da ausência, quando a memória se torna tão avassaladora que toma conta da vida cotidiana. O novo filme de Chloé Zhao se dedica a explorar os momentos que antecedem e sucedem a perda do menino, acompanhando uma família forçada a conviver com algo para o qual ninguém está preparado: a inevitabilidade da morte e o vazio deixado por um filho que parte antes de seus pais.

A obra de Shakespeare sobreviveu por séculos sendo celebrada e estudada, enquanto a história de quem ficou para manter sua família de pé raramente tem alguma atenção. É a partir daí que o longa demonstra pouco interesse no contexto que originou a obra-prima da dramaturgia e dá maior foco às pessoas que conviveram com a dor que a tornou possível. Agnes, a mãe, é profundamente ligada às próprias raízes, e Zhao constrói muito bem essa relação nas imagens iniciais de seu filme. Na primeira vez em que a vemos, ela dorme sob duas árvores que dividem a mesma raiz, como se fosse, a própria Agnes, parte dessa paisagem. Logo em seguida, chama seu falcão de estimação, que pousa em seu braço e reforça o quanto sua vida está em sintonia com a natureza. Quando fica grávida, decide dar à luz sozinha na floresta, sob as mesmas duas árvores, e mais tarde tenta repetir o ritual na segunda gravidez, mas é impedida pela sogra, que a obriga a permanecer em casa. Aos poucos, vemos como essa mulher tão ligada à terra passa a viver sobretudo em função dos filhos, e, quando seu falcão morre, fica claro que a natureza deixa de ser o centro de sua vida, substituída pela maternidade e pelas responsabilidades que a limitam ao ambiente doméstico.

William, por outro lado, é o oposto da esposa. Enquanto Agnes se ancora no lugar onde nasceu e construiu sua família, ele se sente sufocado no vilarejo que mora e, por isso, vê no teatro a possibilidade de alcançar um mundo maior. Londres representa a chance de levar suas histórias ao maior número de pessoas possível, e é também lá que ele encontra um modo de reorganizar sua dor, transformando o luto em algo que possa ser compartilhado e compreendido por desconhecidos. Com isso, surge uma inquietação implícita: até que ponto transformar a dor em arte é uma necessidade humana, e até que ponto isso se torna uma forma de fuga? Esse contraste entre as personalidades do casal explica por que a morte de Hamnet os afeta de maneiras tão distintas, com Agnes permanecendo cercada pelos objetos e espaços onde o filho viveu, e William ciente de que a vida não para e de que seu trabalho é necessário para sustentar o que restou da família. Assim, para que alguém tenha liberdade para sair pelo mundo cativando multidões, alguém precisa permanecer e cuidar do que ficou para trás.

Porém, para além da construção dos personagens, o que realmente torna toda essa dor palpável são as performances extraordinárias do elenco principal, que dão rosto e substância à emotividade almejada pelo roteiro e pela direção. Jessie Buckley é o coração da obra, compondo uma Agnes cujas inquietudes se estendem a todo seu corpo: da postura que se fecha gradativamente ao olhar que ganha contornos mais trágicos conforme o luto se apossa da personagem, tornando-a mais dramática em sua fisicalidade sem que essa exterioridade fique exagerada. Paul Mescal opta por um registro mais contido, no qual sua dor é constantemente reprimida numa tentativa de disfarçar suas angústias para seguir como provedor da família e não repetir a figura paterna monstruosa que teve, externando sua fragilidade apenas em alguns gestos e olhares sutis.

Por fim, o estreante Jacobi Jupe é quem mais impressiona, numa atuação rara para alguém tão novo e, arrisco dizer, uma das melhores performances mirins que já vi em um filme. Seu domínio do texto nunca parece decorado ou encenado, e sua presença cênica é tão natural que simplesmente esquecemos que há um ator ali. Isso se torna ainda mais incrível quando levamos em consideração que boa parte dos diálogos foram escritos no inglês elizabetano, naturalmente mais rebuscado e difícil de sustentar com naturalidade, e ainda assim Jupe parece real e espontâneo. É justamente por causa dele que as duas cenas mais emocionantes do filme funcionam tão bem, sendo impossível não acreditar na pureza daquele menino e não se comover diante do destino cruel que o aguarda, culminando num desfecho tão doloroso.

Talvez a arte exista mesmo para dar um lugar às ausências que tiram a nossa paz. Para que pessoas que nada sabem sobre o artista possam se reconhecer nele e misturar suas próprias dores às dele. Afinal, é essa experiência coletiva que imortaliza o fazer artístico e permite que os sentimentos íntimos de alguns indivíduos reverberem através de gerações. Ainda que a arte não possa devolver quem se foi — e muitas vezes não chegue nem perto de consolar um coração enlutado —, ela impede que a ausência continue silenciosa e permite que desconhecidos entendam muito mais sobre o outro e, nesse processo, sobre si mesmos. Como é bom ver um filme que acredita em si mesmo.

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Título Original: Hamnet

Diretor:

Lançamento: 2025

Duração: 126 mins.

Gênero(s):

Classificação: 14

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