Quando terminei Marty Supreme, fiquei pensando em como é comum tratarmos a simpatia pelo protagonista como um pré-requisito para nos envolvermos com um filme. Logo, quando a história se centra em alguém desagradável, somos instintivamente tentados a procurar justificativas que tornem o personagem mais aceitável, como se essa identificação, para começo de conversa, fosse obrigatória. O cinema atual frequentemente segue esse caminho, inventando motivações e traumas que suavizam personagens moralmente questionáveis sempre que eles ocupam o centro da trama; assim, blockbusters como Malévola (2014), Coringa (2019) e Cruella (2021) se empenham em humanizar seus vilões, criando justificativas psicológicas e sociais como uma espécie de compensação moral, mesmo que a personagem em questão tenha como característica principal a obsessão em matar filhotinhos. Por outro lado, muitos dos retratos mais fascinantes do cinema nasceram justamente da liberdade em acompanhar personagens repulsivos sem tentar absolvê-los: Alex DeLarge, Daniel Plainview e, mais recentemente, Lydia Tár, são ótimos exemplos disso. Marty Mauser é mais um desses protagonistas desprezíveis, cego pelo próprio ego e incapaz de assumir falhas ou reconhecer as consequências de suas ações, deixando um rastro de desgraças por onde passa sem nunca cogitar pedir desculpas. E esse é um dos principais motivos para Marty Supreme funcionar tão bem.
Josh Safdie lida com um dos moldes mais previsíveis do cinema, a ascensão de um esportista, para subvertê-lo logo de cara. Marty não é um azarão do tênis de mesa ou um talento em formação, pois já é bom — MUITO bom. Isso elimina a necessidade de montagens motivacionais de treinamento, derrotas pedagógicas ou uma jornada de autoconhecimento que culmine numa grande partida final, uma vez que o talento de Marty nunca é posto em questão. Com isso, o conflito central do longa não está numa mesa de ping-pong (ainda bem!), mas na incapacidade do protagonista em lidar com absolutamente tudo o que acontece fora dela. Se o esporte costuma servir, nesse tipo de narrativa, como metáfora para crescimento pessoal, aqui o que ocorre é o oposto: quanto mais Marty avança como jogador, mais se evidencia o tamanho do seu ego e do seu desdém por todos que encontra pelo caminho, em nome de um sonho utópico que só beneficiará a ele próprio.
O resultado desse direcionamento é uma divertidíssima comédia de erros movida por um protagonista detestável que vai usar qualquer um que aparecer à sua frente como um degrau para sua próxima oportunidade de sucesso, se envolvendo numa espiral de decisões ruins, situações absurdas e oportunidades agarradas no puro improviso. Ademais, com a empatia fora de jogo, Safdie elimina qualquer evolução moral para Marty e não suaviza as adversidades que ele enfrenta. Tanto faz se ele vai quebrar a cara de vez ou escapar de seus problemas novamente, pois ele insiste em se envolver em enrascadas cada vez mais caóticas, quebrar promessas, manipular amizades e, quando tudo parecer perdido, ser salvo por algum golpe de sorte que o empurra para o próximo aperto. O prazer do filme está em acompanhar como Marty sempre encontra um jeito de piorar a própria situação e, ainda assim, continuar avançando.
Assim, fica evidente que o motor do filme é o ego do protagonista, numa crença inabalável de que o mundo deve se adaptar à sua vontade. Marty é tão convicto do próprio talento e esperteza que sequer percebe como impacta as pessoas à sua volta, tendo total domínio na mesa de ping-pong em contraste com sua absoluta incapacidade de lidar com todo o restante. Nesse desequilíbrio egocêntrico, Timothée Chalamet conduz um personagem simultaneamente magnético e desprezível, que fala demais, promete mais ainda e vive como se estivesse à frente de seu tempo — impressão reforçada pelo uso de músicas oitentistas, como Forever Young e Everybody Wants to Rule the World, num filme ambientado em 1952. É uma performance nervosa e imprevisível, num papel que muitos atores teriam cautela em aceitar para não se associarem ao narcisismo do mesa-tenista, mas que Chalamet abraça sem medo, mergulhando de cabeça no personagem e consagrando o melhor trabalho de sua carreira. Pelas nuances de sua interpretação, percebemos como toda a autoconfiança de Marty, no fundo, não passa de um disfarce frágil para evitar qualquer confronto com a própria imaturidade.
Marty Supreme também funciona como um comentário ácido sobre a falência do sonho americano, indo além da anarquia das ruas nova-iorquinas, tão característica na filmografia de Safdie, para mirar um imaginário global que promete que talento e esforço inevitavelmente levarão ao sucesso. Marty acredita piamente nessa promessa e vive se convencendo de que seu grande triunfo está logo ali, na próxima aposta, no próximo torneio ou no próximo milionário que encontrar. Safdie, porém, rompe essa ilusão ao deixar claro que cada pequeno avanço cobra um preço, deixando para trás parentes, amigos e oportunidades sacrificadas em nome de um sucesso que nunca chega a se concretizar. Isso fica especialmente evidente na última cena, em que o choro de Marty, longe de redimi-lo, escancara o momento em que ele finalmente percebe que nem tudo é negociável. Diante do filho recém-nascido surge uma responsabilidade incontornável, e o homem que sempre escapou das consequências das próprias ações se vê, pela primeira vez, diante de algo que não poderá controlar: uma nova vida.