Anders Thomas Jensen construiu sua carreira extraindo humor daquilo que normalmente é tratado com solenidade. Seus filmes abordam morte, religião, trauma e violência a partir de uma lógica de humor mordaz que nunca reduz essas temáticas delicadas a provocações vazias, visto que há um cuidado criativo na forma como o autor constrói suas piadas: o riso sempre brota da situação, do comportamento absurdista dos personagens ou da ironia cruel do destino, e nunca do ataque a algum grupo ou da incompetência daqueles que apostam no choque pelo choque. Em tempos em que muitos confundem humor negro com ofensa gratuita, os filmes de Jensen nos lembram que rir das misérias humanas exige empatia e inteligência, ao invés da vontade de ser desagradável. Amnésia Criminosa (adaptação de título criminosa, razão pela qual tomo a liberdade de traduzir o original ao pé da letra, chamando o filme de O Último Viking a partir daqui) é a mais nova obra do diretor dinamarquês e, como de costume em sua filmografia, é mais uma história protagonizada por homens teimosos e emocionalmente instáveis.
Depois de passar quinze anos na prisão, Anker deixa a cadeia decidido a recuperar a fortuna que foi enterrada na época de sua captura… o problema é que apenas seu irmão sabe onde o dinheiro está. O irmão, Manfred, sofre de transtorno dissociativo de identidade, agora atende por John Lennon e vive numa confusão mental em que Beatles, traumas de infância e lembranças incompletas se misturam. Em busca da fortuna, os dois retornam à casa onde cresceram e embarcam numa caça ao tesouro que desenterra muito mais do que a dupla pretendia. Jensen se vale dessa premissa absurda para compor uma narrativa que constantemente flerta com a melancolia, na qual violência e afeto convivem de forma desconfortavelmente orgânica: rimos das situações, dos personagens e de seus fracassos, mas o humor é agridoce e acompanha a sensação de que, por trás de cada piada, existem pessoas que cresceram sem nunca aprender a lidar com os traumas que as assombram.
Conforme a obsessão de Anker pelo dinheiro cresce, vai ficando claro que o diretor tem mais interesse na estagnação emocional dos personagens do que na revelação de onde Manfred escondeu o tesouro. O que movimenta O Último Viking, na prática, são as explosões de violência tão súbitas quanto idiotas, surgindo por motivos mínimos que se tornam pretexto para quebrar algo ou partir para a agressão, como se qualquer frustração fosse insuportável para esses sujeitos que passaram a vida inteira reprimindo suas emoções. Dessa forma, a violência tende a ser abrupta e constrangedora, quase sempre seguida de uma tentativa em fingir que nada aconteceu, revelando cinquentões que continuam agindo como adolescentes incapazes de ignorar um impulso físico. Só é uma pena que haja flashbacks contextualizando os traumas de infância dos dois irmãos, carregados de seriedade e de uma estilização visual que parece buscar uma justificativa psicológica para algo que o comportamento adulto deles já deixa bem claro. Felizmente, basta o retorno ao presente para que o filme volte a funcionar, reencontrando seu tom de brutalidade e humor sem sublinhar cicatrizes do passado para entendermos como elas surgiram.
O dilema do filme é simples: quem nós somos quando a nossa própria história deixa de fazer sentido? Manfred abraça a identidade de John Lennon — num contexto que prefiro não entregar aqui — porque é menos doloroso viver como o ex-Beatle do que aceitar que seus pais já morreram e que seus irmãos o veem como um fardo. Anker, por sua vez, insiste na busca pelo dinheiro como se isso pudesse resolver sua vida e devolver, de alguma forma, os quinze anos perdidos na prisão. Ao redor da dupla, todo mundo parece carregar alguma ficção pessoal para continuar em pé, do estilista que tenta escrever um livro infantil há décadas ao doutor que dirige até a Suécia para buscar um paciente que alterna entre Paul McCartney e George Harrison. O curioso é que, mesmo com o acúmulo crescente de ressentimentos, ninguém parece disposto a romper de vez com o outro, já que, no fundo, seus laços são tudo o que lhes restou.
O grande êxito de O Último Viking é que todos os seus personagens são acompanhados de perto o suficiente para entendermos suas fragilidades, mas nunca a ponto de se tornarem vítimas, já que todos parecem empenhados em tomar decisões ruins e machucar uns aos outros, tanto física quanto emocionalmente. Nesse cenário, o humor amortece essa convivência caótica, mas também expõe o quanto essas fantasias, diagnosticadas ou não, funcionam como último recurso para não encarar de frente uma vida que não saiu como o planejado. Por isso, nada mais justo que o filme se encerrar com a apresentação da banda improvisada de Beatles, um quarteto vibrante que toca como se aquilo fosse a única coisa que ainda faz sentido para eles.