Arco

Direção —

Ano — 2025

Ao narrar o encontro entre duas infâncias solitárias, Arco encontra na delicadeza do afeto a força capaz de colorir um mundo monocromático.

É difícil não comparar Arco com os filmes de Hayao Miyazaki. Digo isso pois temos aqui uma animação 2D com traços delicados, uma trama em que a infância ocupa o centro dramático e uma condução que se vale da linguagem animada para projetar uma visão otimista de nosso mundo, reconhecendo suas mazelas sem abrir mão do encanto e da beleza de seu realismo fantástico. A obra parece dialogar com uma tradição que entende a pureza do olhar infantil como uma força que pode reorganizar o caos do mundo externo; no entanto, essa aproximação também estabelece um parâmetro inevitavelmente exigente, já que, ao evocar esse imaginário consolidado pelo Studio Ghibli, torna-se automática a comparação com as obras do estúdio, pioneiras em transformar delicadeza em densidade artística. Se a reverência é sincera e bem-intencionada, o repeteco de seu material de origem não consegue alcançar a mesma potência poética.

Em um futuro distante onde a humanidade vive acima das nuvens e depende de viagens no tempo para buscar recursos, o pequeno Arco desobedece aos pais e viaja sozinho com sua capa multicolorida. Ele cai em 2075 e conhece Íris, uma menina solitária em uma época automatizada demais para permitir afeto e calor humano, e desse encontro entre duas crianças completamente diferentes surge uma linda amizade. A partir dessas duas infâncias carentes, uma marcada pela superproteção e a outra pelo abandono, o filme enfatiza a semelhança entre desejos que nascem de contextos tão opostos: ele anseia por autonomia e por provar que já é capaz de voar entre as eras, e ela deseja ser reconhecida pelos pais ausentes e emocionalmente indisponíveis. Essa dinâmica é reforçada no contraste entre o mundo distópico quase monocromático e a capa de arco-íris que acompanha Arco e Íris, numa simplicidade direta que expressa como a dupla é capaz de devolver o encanto a um mundo condenado à monotonia.

O problema é que o roteiro desconfia da própria simplicidade. Em vez de se contentar com a beleza das interações entre os dois protagonistas, a narrativa sente necessidade de inserir uma quantidade considerável de coadjuvantes e situações paralelas que pouco acrescentam à história, tanto em forma quanto em conteúdo. Em uma trama cujo conflito central poderia se resumir ao desejo de voltar para casa e à descoberta da primeira amizade, o acúmulo de personagens secundários fica desproporcional. Destaco, em especial, os três irmãos caricatos que perseguem as crianças (numa tentativa forçada de alívio cômico), e o colega de sala de Íris, Clifford (nesse caso, completamente descartável). Considerando que o filme tem menos de 90 minutos, faltam momentos silenciosos entre as duas crianças para que seu vínculo atinja a emotividade prometida nas cenas iniciais.

Em vista disso, me peguei pensando muitas vezes em Meu Amigo Totoro, talvez o maior exemplo de como uma narrativa infantil não depende de antagonistas ou de reviravoltas para se imortalizar. No clássico japonês, quase nada acontece no sentido tradicional do termo, mas cada minuto constrói uma atmosfera simbólica que vai ganhando escopo sem pressa. Totoro confia na força do presente, enquanto Arco tangencia essa possibilidade, mas recua antes de abraçá-la por completo, tentando se manter em movimento o tempo todo. Com a inserção de conflitos e personagens que pouco reverberam, o filme dilui o poder de sua própria premissa e enfraquece a construção da intimidade entre Arco e Íris, como se a contemplação nunca fosse suficiente.

Ainda assim, não nego que haja um coração pulsante por trás de cada escolha artística de Bienvenu: Arco é um filme elegante, sensível e visualmente deslumbrante, que sabe quando assumir riscos e chega a seu auge quando opta por um desfecho corajoso e nada convencional. Se fica a sensação de que o longa poderia ter ido ainda mais longe, isso não apaga a delicadeza dos momentos em que ele encontra seu rumo: aqueles em que as duas crianças descobrem quem são e deixam que a simplicidade de seus gestos sustente tudo o que (não) precisa ser dito. Nesses instantes, Arco quase aprende a voar mais alto do que de fato voa — e talvez esse “quase” resuma bem tanto sua beleza quanto sua limitação.

Arco

Título Original: Arco

Diretor:

Lançamento: 2025

Duração: 89 mins.

Classificação: 10

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