Cara de Um, Focinho de Outro

Direção —

Gêneros — ,

Ano — 2026

Divertido e fiel às implicações de sua premissa, Hoppers reencontra a inventividade que consagrou a Pixar e se engrandece na simplicidade de sua proposta.

Desde que Pete Docter assumiu o controle criativo da Pixar, pouco antes da pandemia, os filmes do estúdio passaram a apostar em histórias mais pessoais, confessionais e interessadas em transformar as vivências de seus diretores em grandes alegorias animadas. A intenção era nobre, mas os resultados dessa decisão foram bem irregulares. Filmes como Red: Crescer é uma Fera, Elementos e Elio tentaram carregar o peso de uma importância autoimposta que, no fim, não conseguiu se converter em narrativas envolventes. Hoppers, por outro lado, desvia dessa tendência. Em vez de partir da interioridade de um indivíduo e depois expandir suas inquietações para um escopo maior e mais urgente, a animação começa num microcosmo em conflito e deixa que seus personagens evoluam a partir da fricção com esse espaço limitado. Por isso, ao sair da sessão, tive a sensação de que o estúdio finalmente se lembrou de suas origens, quando, antes de serem importantes, seus filmes eram inventivos. O resultado dessa mudança de rumo? A melhor obra Pixar desde Soul.

A premissa do filme — que no Brasil recebeu o vergonhoso título Cara de Um, Focinho de Outro — já nasce com o frescor que sempre marcou as melhores ideias do estúdio, e a possibilidade de transpor a mente humana para o corpo de um animal robótico, explorando as consequências práticas e morais disso, abre um campo quase infinito de situações. A obra entende esse potencial e, em vez de mirar em questões existenciais ou discursos edificantes, opta por brincar com as implicações do conceito. Numa confiança rara na força da própria ideia, a história se desenvolve como um brinquedo novo sendo descoberto a cada nova função, e o prazer de quem a assiste está em ver até onde ela consegue ir.

Grande parte desse vigor vem da direção inspirada de Daniel Chong, criador da série animada Ursos Sem Curso, que agrega à Pixar a energia cartunesca de seu humor físico, verbal e situacional, e se mostra disposto a se colocar em becos aparentemente sem saída apenas para encontrar soluções criativas alguns minutos depois. As piadas aqui são parte estrutural da narrativa, resultando num ritmo excelente que transforma o inesperado em regra e faz o público rir não só pela construção imediata da piada, mas pela ousadia de levá-la às últimas consequências, o que faz de Hoppers uma das animações mais consistentemente engraçadas que o estúdio já produziu.

Em vista de sua leveza, o filme também se torna mais sincero. Sempre que a trama se encaminha para uma vertente mais aterradora ou emotiva, isso é uma consequência natural do choque entre o mundo humano e o animal, e não um artifício barato que implora comoção. O conflito central nunca perde seu caráter aventuresco e a mensagem ambientalista da obra não se torna panfletária, pois surge do próprio desenrolar dos acontecimentos, permitindo que o subtexto permaneça nas entrelinhas e não precise ser escancarado como se o espectador não fosse capaz de interpretar o que está assistindo. Assim, a condução leve e descompromissada nunca dilui o conflito porque o inscreve nas ações e não nas explicações.

Outro grande acerto da animação são as suas decisões estéticas, especialmente na forma como os corpos são representados. Quando Mabel assume o corpo do castor robótico, o desenho de suas feições se torna mais humanizado e expressivo, quase antropomórfico, como se o design nos lembrasse da presença da mente humana ali dentro e permitisse que a protagonista reconheça os outros animais como seres pensantes. No entanto, quando retornamos ao ponto de vista externo, os mesmos animais passam a ter os olhos completamente pretos (como já visto em animações como Irmão Urso e Valente), recuperando uma opacidade que impede a identificação humana com esses seres. Dessa forma, essa oscilação cria uma tensão em que a empatia não implica no apagamento das diferenças, uma vez que ela depende do reconhecimento de que há algo no outro que não pode ser totalmente traduzido. A tecnologia de saltos que permite a travessia nunca elimina o distanciamento entre humano e animal, pois compreender não é o mesmo que se tornar o outro.

No fim, o maior mérito de Hoppers é redescobrir o prazer de contar uma boa história acima de qualquer outra ambição. Em vez de mirar no peso de sua relevância cultural, o filme se contenta em ser inventivo, engraçado e explorar ao máximo sua premissa, encontrando uma linguagem própria que nos lembra por que o nome Pixar se tornou sinônimo de excelência alguns anos atrás. Se esse é o início de uma nova fase, estamos falando de uma fase que nasce de algo simples e poderoso: criatividade sem culpa e diversão descompromissada, retomando princípios que valorizam a potência de uma boa ideia e permitem que dela surjam consequências imprevisíveis e cativantes.

Cara de Um, Focinho de Outro

Título Original: Hoppers

Diretor:

Lançamento: 2026

Duração: 105 mins.

Gênero(s): ,

Classificação: 6

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