Maurício de Sousa: O Filme

Direção —

Gêneros — ,

Ano — 2025

Ao optar por uma homenagem segura e preocupada em preservar a imagem pública de Maurício de Sousa, a cinebiografia nunca explora a humanidade do artista, limitando-se a uma narrativa nostálgica, meritocrática e inofensiva.

É difícil ignorar o afeto que precede Maurício de Sousa: O Filme. Os personagens criados pelo autor marcaram gerações, moldaram infâncias e ocupam um lugar de destaque na cultura pop brasileira, o que facilita nossa simpatia imediata por qualquer obra do Monicaverso que chegue aos cinemas. O problema é quando o longa decide se apoiar exclusivamente nessa predisposição afetiva, tratando-a como uma desculpa para evitar a criação de conflitos, aprofundamentos e escolhas estilísticas minimamente criativas, reduzindo a cinebiografia do maior quadrinista brasileiro vivo a uma homenagem auto-congratulatória, inofensiva e dramaticamente vazia. É como se a nostalgia fosse o bastante para sustentar uma hora e meia de uma obra que nunca perde a oportunidade de infantilizar seu público, considerando-o incapaz de lidar com quaisquer nuances ou ambiguidades da vida de seu protagonista, numa lógica narrativa em que tudo é apresentado com extrema conveniência.

Essa escolha se torna bem perceptível na maneira com que o filme lida com o processo criativo do biografado. Suas ideias já surgem prontas e instantâneas, como se a criação da Turma da Mônica fosse fruto de lampejos súbitos de genialidade, sem espaço para a dúvida ou o amadurecimento criativo. Dessa forma, personagens icônicos surgem com facilidade, sempre acompanhados do sorriso satisfeito de seu criador, como se a arte fosse um dom espontâneo e milagroso que dispensa o erro e a frustração — algo bem parecido com o processo criativo retratado em Bohemian Rhapsody, onde Freddie Mercury idealizava músicas lendárias em instantes de epifania. Ao evitar mostrar o desenvolvimento desse processo, o longa esvazia toda a dimensão crítica da criação artística, transformando-a em um dom mágico que é, paradoxalmente, pouquíssimo interessante do ponto de vista dramático.

A mesma lógica idealizada também se aplica à construção do protagonista, interpretado por Mauro Sousa. Maurício é apresentado como um homem gentil, resiliente e moralmente irrepreensível, cujos obstáculos nunca têm peso, uma vez que ele é otimista demais para reconhecer os próprios problemas. Quando surgem (raros) conflitos, eles são sempre provenientes de eventos externos e rapidamente neutralizados, já que a trajetória do cartunista precisa ser vendida sob uma ótica fortemente meritocrática, em que a persistência justifica tudo e os fracassos nunca deixam marcas. Sempre que algo não sai como o planejado na vida de Maurício, a responsabilidade jamais recai sobre suas escolhas ou limitações, mas sobre um mundo que ainda não estava pronto para reconhecer sua genialidade. Sabemos que a história real não foi tão simples, mas o roteiro decide ignorar a possibilidade de nuances, com medo de humanizar demais um ícone que precisa ser pintado como um santo. Assim, cria-se uma figura idealizada cuja humanidade é sacrificada em nome da preservação simbólica (mais uma vez, num vício de biopics que nasce da mesma fonte que Bohemian Rhapsody).

Se considerarmos o contexto de produção do filme, essa falta de dramaticidade encontra sua raiz: trata-se de uma cinebiografia de uma personalidade ainda viva, produzida pelo estúdio que leva seu nome e estrelada por seu próprio filho. Não teria como o resultado ser outro senão uma obra excessivamente preocupada em não desapontar o chefe. E se a construção do personagem é irrisória, a atuação de Mauro Sousa só contribui mais para essa superficialidade. Sua interpretação se resume a sorrisos, independentemente do registro dramático exigido. Quando ele é demitido, sorri. Quando recusam seus desenhos, sorri. Quando perde a avó, sorri. Quando está feliz, sorri também, mas agora com motivo. Nessa falta de variação emocional, momentos que poderiam carregar algum impacto são muito enfraquecidos, e fica a impressão de que o personagem não pode, em hipótese alguma, demonstrar resquícios de emoções negativas como raiva, tristeza ou frustração.

Outro agravante para a esterilidade do longa é a constância de uma narração que só reforça o que já está sendo mostrado. Em vez de permitir que imagens, cortes e atuações construam sentido por si, a obra opta por verbalizar tudo, talvez para garantir que não haja qualquer ambiguidade na condução de sua propaganda. O mesmo vale para as tentativas pontuais de brincar com a linguagem dos gibis, tanto no uso de split screens quanto na leitura das primeiras tirinhas pelos dubladores atuais da Turma da Mônica. São ideias interessantes isoladamente, mas que não se articulam com um projeto estético que as integre organicamente ao filme, funcionando mais como sacadinhas criativas do que como parte de uma linguagem cinematográfica propriamente dita.

Maurício de Sousa: O Filme nunca tenta compreender o homem nem o artista em sua complexidade, uma vez que seu único propósito é consolidar a imagem pública intocável do empresário. Trata-se de um filme calculado para não desagradar ninguém, no qual até temas espinhosos, como o episódio em que o cartunista foi acusado de subversão durante a Ditadura Militar, são tratados de forma apressada e superficial, temendo qualquer atrito e se recusando a assumir riscos narrativos ou políticos. Não se pode negar que há muito carinho, respeito e intenções genuínas de valorizar essa celebridade tão estimada; o problema é que, ao escolher o caminho confortável e acrítico da nostalgia, o longa abre mão de tudo o que poderia torná-lo relevante enquanto cinema, o que é pouco para alguém cuja criação sempre foi tão viva e tão humana. É uma pena que o protagonista sorria tanto, mas não possamos fazer o mesmo.

Maurício de Sousa: O Filme

Título Original: Maurício de Sousa: O Filme

Lançamento: 2025

Duração: 93 mins.

Gênero(s): ,

Classificação: Livre

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