Fazia tempo que eu não ria tanto com um filme e, ao mesmo tempo, não me sentia tão conectado a ele, ao ponto de decidir revê-lo no mesmo dia. Por isso, acho impossível escrever sobre Nirvanna the Band the Show the Movie sem partir desse lugar intrinsecamente pessoal — até porque, no fim das contas, toda crítica é subjetiva, e qualquer tentativa de parecer neutro aqui seria meio desonesta. O quanto essa obra funcionou para mim deve muito ao tipo de humor que ela abraça, às referências que decide usar como base de sua condução e à forma fundamentalmente humana com que constrói seu caos narrativo. Digo isso porque é frequente a sensação de se pegar pensando “como eles fizeram isso??” ao longo do filme, das filmagens não-autorizadas que renderiam processos judiciais às cenas ambientadas em 2008 que não poderiam ter sido forjadas em um longa independente de baixo orçamento. Em tempos desanimadores de inteligência artificial generativa e de espectadores cada vez menos atentos ao que assistem, é um pequeno milagre ter o privilégio de assistir algo tão honesto, divertido e, vale frisar, humano.
Matt e Jay são dois amigos de infância que têm uma banda e tentam, há dezessete anos, se apresentar por uma noite no Rivoli, um popular restaurante de Toronto, elaborando planos mirabolantes e se envolvendo em situações cada vez mais absurdas na tentativa de realizar esse sonho. Nessa insistência quase imbecil por um objetivo tão simples, a jornada da dupla se torna simultaneamente engraçada e melancólica, como se todo o mundo ao redor evoluísse, o tempo passasse, mas eles continuassem presos a essa meta. O filme nunca tenta transformar esse sonho em algo maior do que ele é, mas também não o menospreza, pois entende que a graça mora na pequenez da ambição, e a forma como isso é retratado é tão sincera que, mesmo sem nunca ter visto um único episódio da websérie que inspirou o longa, é impossível não entender quem são Matt e Jay e torcer para que tudo dê certo para eles.
Por se tratar de uma comédia, muitas das situações que poderiam ser interpretadas como erros ou incoerências em outros gêneros e contextos se tornam combustível para piadas (ou simplesmente não importam). Um exemplo disso é a cena em que Matt percebe que voltou para 2008 ao ver uma sala de cinema lotada de pessoas rindo de piadas homofóbicas durante uma sessão de Se Beber, Não Case… que só seria lançado em 2009. Em vez de se tornar um deslize, a inconsistência só reforça o tom da obra e agrega à experiência. Primeiro porque, quando você está realmente imerso, você não se preocupa em conferir esse tipo de detalhe — eu mesmo só percebi na segunda vez que assisti. E, segundo, porque o filme se vale de uma lógica em que a precisão da própria diegese não importa tanto quanto o efeito, o ritmo e o impacto da situação naquele momento. A autenticidade da obra é reforçada ainda mais quando você a revisita, e não tem como não admirar o empenho dos realizadores com cada nuance da realidade que construíram.
Outro ponto que me pegou em cheio foi a forma como o longa homenageia De Volta Para o Futuro e De Volta Para o Futuro Parte II, especialmente levando em consideração que o primeiro é nada menos que meu filme favorito e, portanto, o considero intocável. Sempre que um filme decide se apoiar em outro, liga-se um alerta, uma vez que há um risco enorme dessa alusão não passar da superfície, do fan-service e do easter egg vazio. Aqui isso nunca acontece, já que as referências se integram à própria estrutura narrativa, movimentando a trama e ressignificando o mundo dos personagens. A forma como certas informações são plantadas e retomadas depois, através do foreshadowing, e a maneira com que objetos e informações ganham novos significados ao longo da narrativa remetem imediatamente à lógica do filme de 1985. É um cuidado apaixonado com o material original que vai muito além da nostalgia, criando um diálogo respeitoso com um filme que marcou a vida de tantos espectadores, e isso me fez pensar ainda mais no quão pobre é o vício hollywoodiano por continuações e remakes, como se a única forma de manter algo vivo fosse reproduzindo aquilo de maneira literal. Esse filme prova que é perfeitamente possível honrar algo que você ama sem se apoiar no repeteco tintim por tintim.
Quanto ao humor, há uma recusa da comédia autoconsciente e irônica que marca muitas das (raras) comédias modernas, altamente dependentes de gags rápidas e diálogos com “sacadinhas” forjadas para tirar sarro de si. Em vez disso, o humor é bem tosco e ingênuo, mas no melhor sentido possível, já que muitas das situações nascem do improviso com pessoas que claramente não sabem que estão sendo filmadas, e isso implica em momentos genuínos que contrastam muito bem com o absurdismo das cenas com diálogos roteirizados. Com isso, fica mais fácil de acreditar em tudo, porque a obra nunca parece estar tentando criar momentos cômicos, opondo o real ao nonsense para manter o filme em movimento. A própria descoberta da viagem no tempo surge de forma casual dentro de uma diegese que, até então, parecia seguir uma lógica de verossimilhança, mas, ainda assim, a aceitamos de imediato, uma vez que estamos envolvidos demais para questionar. Assim, esse contraste só fortalece ainda mais o divertidíssimo caos imprevisível que estamos assistindo.
É também por conta desse admirável caos que os pequenos deslizes do filme acabam encontrando seu lugar. Eu até poderia apontar que os flashbacks expositivos em preto e branco, usados à exaustão para relembrar cenas anteriores do longa, acabam se tornando redundantes; ou então que o primeiro ato deixa claro como os realizadores não sabiam muito bem para onde a obra deveria ir, até encontrar seu rumo a partir da inserção da viagem no tempo, mas, sinceramente? Nada disso tira o charme do filme. Seu fluxo errático e acidental, na verdade, depende de imperfeições aqui e acolá e, no fim, o que fica é a rara sensação de ter assistido a algo tão vivo e tão alinhado com a saudosa “magia do cinema”, que qualquer tentativa de caçar pelo em ovo seria irrelevante. Eu ri, me surpreendi e quis rever o filme tão logo ele havia terminado, e isso diz muito mais do que qualquer análise fria e impessoal conseguiria. Mal posso esperar para assisti-lo mais uma vez.