OS 20 MELHORES FILMES DE 2025

PUBLICADO EM: 14/03/2026

Mais uma vez, 2025 veio provar que toda aquela conversa sobre o fim do cinema não passou de exagero. No meio de tanto ruído, o ano acabou sendo surpreendentemente generoso: autores de peso voltando com força, estreias que ninguém via vindo, filmes que foram de festival em festival e chegaram carregados de expectativa. O resultado foi uma safra variada e inquieta, com obras que geraram debate, dividiram opiniões e ficaram na cabeça por muito tempo depois que as luzes acenderam.

Nossa lista traz vinte filmes que marcaram o ano por caminhos bem diferentes. Por aqui temos experimentação formal, épico de larga escala, drama pequeno e íntimo e filmes de gênero que encontraram jeitos novos de falar sobre o presente. Alguns dominaram as discussões desde o lançamento; outros chegaram quietinhos e foram crescendo devagar, até virar conversa obrigatória. O que todos têm em comum é que ficaram na memória, nas conversas, na vontade de rever. Mais do que um ranking, este é um convite pra revisitar obras que lembram, de novo, por que continuamos voltando para o cinema.

Para elaborar a lista, reunimos nossos longas-metragens favoritos, e a classificação final resulta da soma dos pontos obtidos nos rankings individuais (nos quais o primeiro colocado recebeu 10 pontos, o segundo, 9 pontos, e assim sucessivamente). Além disso, consideramos como “filme de 2025” as obras lançadas comercialmente em seu país de origem ao longo do ano passado, logo, produções como Nickel Boys (2024) e Nosferatu (2024) não foram elegíveis, enquanto filmes que chegaram ao Brasil apenas em 2026 foram considerados. Sem mais enrolação, confira os vinte melhores filmes de 2025.

20. HAMNET: A Vida Antes de Hamlet

Muitos filmes sobre artistas tentam explicar a genialidade que deu origem a grandes obras, mas Hamnet segue por um caminho totalmente diferente. Chloé Zhao parte da morte do jovem Hamnet Shakespeare para retratar o vazio avassalador que sua perda deixou para trás e as maneiras que seus pais encontraram para enfrentar o luto. Agnes, a mãe, permanece cercada pelos lugares onde o menino viveu, enquanto William, o pai, passa semanas em Londres tentando reorganizar sua dor através da arte. O interessante é que Zhao nunca apresenta esses comportamentos como um conflito, apenas como formas diferentes de sobreviver à mesma tragédia, filmando tudo com um naturalismo delicado em que a câmera tem receio de ser invasiva num momento de tanta vulnerabilidade. A arte não pode dar explicações à dor de um artista, mas permite que ele seja compreendido até mesmo por desconhecidos. O resto é silêncio.

— Gabriel Ritter

19. FOI APENAS UM ACIDENTE

Foi Apenas um Acidente começa de forma banal, com um pai de família atropelando um cão na estrada, mas logo dá espaço a um estudo incômodo sobre o que acontece quando vítimas cogitam agir como seus carrascos. Jafar Panahi conduz tudo numa encenação sóbria com enquadramentos apertados e um senso de humor nervoso que expõe o despreparo dos personagens diante da violência que pretendem cometer. Pouco a pouco, o longa vai deixando de lado o dilema de quem é o homem sequestrado, para enfatizar o que seus captores estão se tornando cada vez que se propõem a repetir a brutalidade daquilo que sofreram, se encaminhando para zonas morais cada vez mais ambíguas. No fim, temos um desfecho cruel que nos confirma a sensação de que a barbárie sempre encontra novas formas de continuar existindo, no que se consagra, facilmente, como o melhor encerramento de 2025.

— Gabriel Ritter

18. Eddington

No filme de Ari Aster, a Covid, além de servir como pano de fundo temático para situar o contexto histórico do enredo, é um catalisador dramático que expõe outras questões que vêm explodindo nos Estados Unidos (e no mundo), inclusive depois da pandemia, refletindo paranoias conspiratórias, a necessidade de eleger políticos populistas que prometem na medida que exploram, a desinformação que nasce da polarização e a guerra cultural mediada pelo uso das redes sociais na via promocional do discurso. A cidade fictícia onde o filme se passa abriga grupos que passam os dias se confrontando passivamente, esperando que o xerife e o prefeito locais, interpretados respectivamente por Joaquin Phoenix e Pedro Pascal, tomem a frente apontando o dedo um para o outro com xingamentos e falsas promessas. Os dois parecem alimentar mais uma necessidade de aprovação, um acerto de contas masculino, do que pensar no bem-estar coletivo, e o filme sempre caminha no sentido de exclamar, exaltar, e raramente pontuar afirmações e estabelecer respostas de forma direta e mais discreta. Essa ênfase no volume do discurso configura uma escalada de violência e ambiguidade entre quem está atacando quem, porque a clareza da emissão de mensagens se dissolve na urgência por respostas. Aster acaba abrindo ainda uma terceira via interpretativa quando, como em filmes anteriores, enterra tudo que é concreto e mergulha de cabeça na pós-ironia, e a sensação de catarse é substituída por desagradáveis ruídos.

— Pedro Daher

17. a pequena amélie

A Pequena Amélie parte de uma premissa muito curiosa — uma garotinha de dois anos convencida de que é Deus — e pinta a primeira infância como um evento de ordem metafísica, onde, antes de compreender o tempo, a linguagem ou o outro, a criança acredita ser o centro do universo. Abraçando essa lógica, a animação investiga o nascimento da consciência e observa o momento em que o olhar infantil começa a perceber que o mundo não responde aos seus desejos, passando a descobrir limites que antes não existiam com uma frequência cada vez maior. Ao transformar esse despertar da mente em um princípio narrativo e visual, a obra encontra uma maneira delicada e surpreendentemente rigorosa de refletir sobre infância, percepção, imaginação e o fim da inocência.

— Gabriel Ritter

16. O Dia de Peter Hujar

Assim como ocorre na obra literária de Patti Smith, o filme de Ira Sachs transforma a criação artística em pequenas ações cotidianas, traduzindo o esforço de pensar na leveza de sentar e conversar. As ideias sustentadas pelo fotógrafo da vida real Peter Hujar, interpretado com delicadeza por Ben Whishaw, não partem de estratégias de posicionamento ou configurações pré-estabelecidas. Ele está sendo apenas sua versão de todos os dias, e o fato de estar sendo gravado pela jornalista Linda Rosenkrantz, interpretada por Rebecca Hall, nunca interfere na naturalidade do discurso, quando parece até reforçar, porque o artista cria simplesmente ao falar, enquadrando um pedaço de realidade em uma moldura que também pode passar pelo crivo da ficção. O discurso é livre, e o que se registra acompanha esse fluxo contínuo de informação sem corte que revela não só uma parte importante da identidade de um cara que está acostumado a se colocar em segundo plano quando fotografa, como também revela sua humanidade. Peter Hujar é o que ele escolheu ser nessa entrevista, e, para o registro do cinema, isso é tudo. E já é muita coisa!

— Pedro Daher

15. Sore: Istri Dari Masa Depan

Nesse romance indonésio, o artifício do looping temporal se torna central para uma reflexão sobre destino e escolhas feitas em nome do amor; porém, Yandy Laurens foge de saídas fáceis e recusa o velho clichê do “amor que salva tudo”. Ao posicionar Sore e Jonathan em ciclos infinitos de reencontros que sempre começam e terminam da mesma maneira, o filme se vale de sua temática clássica de viagem no tempo para explorar um terreno mais íntimo: a impossibilidade de salvar o amor da sua vida sem primeiro confrontar sua própria incapacidade de mudar. Dessa forma, apesar da dedicação incondicional de Sore a seu futuro marido, ela percebe que o amor nunca vai ser suficiente para transformar um homem que sequer sabe o que falta em si, e a cada vez que a jovem precisa enfrentar a mesma sequência de acontecimentos para tentar chegar a um resultado diferente, sua rotina repetitiva vai nos revelando uma mulher disposta a viver dez mil vidas para tentar acertar algo que não depende somente dela e que talvez nunca vá se concretizar. Ainda assim, ela segue tentando, e cada recomeço só confirma que o tempo não pode invalidar o amor verdadeiro.

— Gabriel Ritter

14. O Esquema Fenício

Wes Anderson dispara uma quantidade imensurável de informações em um recorte que, até para um longa-metragem, parece curto. Ele não está interessado em simplesmente criar um mosaico de personagens excêntricos e irreverentes na mesma medida, mas de transformar sua narrativa na epítome da ansiedade, no disparo de modalidades de quase todo assunto que você imaginar, de esporte a astronomia, quase como um verbete de Wikipedia ambulante de sua filmografia, centralizando sua narrativa em um pai disfuncional (tema comum atualmente), que também é um magnata internacional envolvido em um complexo plano econômico cujo conteúdo parece pouco importar quando a forma com a qual Anderson escolhe a abordar segue sendo tão cartesiana e pragmática, com a diferença de que, agora, nada é muito calculado, mas urgente e cheio de maneiras difíceis e engenhosas de mostrar coisas fáceis de serem mostradas ou verbalizadas. Essa particularidade cria um efeito cômico quando atores consagrados, como Tom Hanks e Bryan Cranston, atuam em pontas quase insignificantes apenas para tomar decisões importantes narrativas para outras personagens. É um filme bem divertido, que também se beneficia das presenças de Michael Cera (o match perfeito para o Anderson recente) e de Mia Threapleton.

— Pedro Daher

13. A Única Saída

Em A Única Saída, a vida perfeita de um homem privilegiado desmorona após ele perder o emprego, fazendo com que ele recorra à violência como sua última ferramenta de sobrevivência. O filme de Park Chan-wook registra como Yoo Man-su tenta segurar o que lhe resta num mundo que não lhe dá chances, transformando o desespero de um homem comum em pura tragicomédia. Assim, cada disputa por uma vaga de emprego se torna cômica e tensa à mesma medida, enquanto Lee Byung-hun domina sua interpretação entre nervosismo, desespero e um timing cômico impecável que lhe rendeu uma indicação no último Globo de Ouro. No fim, a obra trata do peso do status e do egoísmo, escancarando as contradições do capitalismo selvagem sul-coreano e a tentativa de sobreviver nesse mundo em colapso.

— Gabriel Ritter

 

12. Sorry, Baby

O debut de Eva Victor oferece um frescor, uma verdadeira ressignificação em relação àquela maneira irreverente, e muito particular, com a qual o universo indie lida com as idiossincrasias da adolescência, principalmente do que é ser uma mulher saindo da universidade, encarando o mundo de frente e constatando que ele não é bonito. Sorry, Baby é um tipo de coming-of-age raro, que não relativiza o que é sério. Sabe como abordar a realidade cruel de violência sexual sofrida pela protagonista através de uma administração esperta do tempo com elipses e narrativa episódica, em forma de zigue-zague e intervenções criativas, o que, somada à personalidade elétrica, mas nunca irritante (pelo contrário, divertidíssima), de Agnes, interpretada com muita espontaneidade pela própria Eva, dá ao filme muita fluidez.

— Pedro Daher

11. Faça Ela Voltar

Faça Ela Voltar constrói um terror que nasce menos do sobrenatural do que do luto e de suas distorções emocionais. A história acompanha os irmãos Andy e Piper, acolhidos por Laura após a morte do pai, mas o que parece um gesto de cuidado rapidamente revela um ambiente de manipulação e instabilidade. Enquanto Andy tenta proteger a irmã cega, Laura passa a desestabilizá-lo por meio de abusos psicológicos e jogos emocionais que corroem a confiança entre os dois, explorando fragilidades do passado da família. Paralelamente, o comportamento estranho do garoto Oliver expõe uma dimensão sobrenatural ligada à obsessão de Laura em ressuscitar a filha morta. A narrativa usa o drama familiar e horror gráfico para mostrar o luto como um caminho de soluções irracionais e perigosas. Culmina-se, assim, um desfecho trágico em que filme confirma sua força ao unir terror psicológico, sobrenatural e humano em uma história que é antes sobre perda e obsessão.

— Leonardo Frederico

10. Sonhos de Trem

Em Sonhos de Trem, acompanhamos a vida do lenhador Robert Grainier por décadas, vendo o mundo ao seu redor mudar enquanto ele segue trabalhando, sofrendo e tentando seguir em frente. Sua existência é só mais uma que seria facilmente esquecida pela História, mas Clint Bentley a filma sem pressa, folheando o álbum de memórias de um homem que tenta descobrir seu lugar no mundo e sobreviver a uma época de constante transformação. Joel Edgerton vive Robert como alguém que sempre observa antes de agir e raramente verbaliza o que sente, mas que carrega em cada pequeno gesto todas as perdas que já enfrentou, assombrado por fantasmas e pela constatação de que só percebeu a beleza de sua vida depois de perder tudo o que tinha. Assim, o que parecia o retrato de um lenhador solitário se torna uma ode aos tantos operários que viveram pelo trabalho e morreram no anonimato.

— Gabriel Ritter

9. Valor Sentimental

Assim como Hamnet, Valor Sentimental é um filme sobre como carregamos nossas dores e as transformamos em arte. As semelhanças, no entanto, param por aí. Nora é uma atriz que foi criada numa casa cheia de histórias, feridas e memórias, e cada incômodo que a assombra parece diretamente relacionado à sua infância conturbada e sua relação distante com o pai, um renomado cineasta. Joachim Trier mistura o drama familiar com a metalinguagem da vida artística da família Borg, de modo que cada cena do filme transita entre realidade e encenação, e entre passado e presente, numa dinâmica que possibilita que o elenco possa brilhar sem ressalvas — Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas, todos excepcionais. O cinema, então, se torna um espelho da vida da família, e se a arte realmente puder restabelecer seus laços, essa pode ser a única forma de seguir adiante.

— Gabriel Ritter

8. A Hora do Mal

A Hora do Mal, dirigido por Zach Cregger, opera em uma zona híbrida: embora inclua uma figura monstruosa e imagens violentas, o filme concentra sua força dramática nas relações e tensões de uma pequena comunidade após o desaparecimento inexplicável de dezessete crianças. A narrativa acompanha a professora Justine, um pai em luto e outros moradores cujas histórias se entrelaçam gradualmente enquanto a paranoia cresce e uma investigação informal toma forma, aproximando o filme de um thriller. Só depois surge com clareza a dimensão sobrenatural, encarnada na enigmática Gladys, uma bruxa que drena a vitalidade das pessoas e manipula o garoto sobrevivente para amaldiçoar as outras crianças. Mesmo assim, o horror nunca eclipsa o drama humano: abusos, perdas e relações moralmente ambíguas conduzem a trama a um desfecho trágico, em que vítimas e culpados parecem presos a uma cadeia de acontecimentos quase acidentais. Dessa forma, o filme se destaca por equilibrar convenções do terror com uma abordagem mais psicológica e narrativa, explorando o gênero ao mesmo tempo em que o questiona.

— Leonardo Frederico

7. Uma Batalha Após a Outra

Em vez de idealizar o suposto heroísmo de seus protagonistas, Paul Thomas Anderson tem mais interesse por decisões precipitadas, planos que dão errado e microconflitos que beiram o caos absoluto. Os revolucionários do grupo French 75 levantam bandeiras de justiça e resistência, mas parecem movidos mais pela adrenalina do que por convicções, e seu despreparo se estende à própria forma de Uma Batalha Após a Outra através de mudanças abruptas de foco, cortes que interrompem ideias e uma trilha musical onipresente que pulsa como uma bomba-relógio prestes a explodir. Na célebre perseguição de carros pelo deserto, o diretor consegue recuperar um senso de deslumbramento típico do Primeiro Cinema, em que o simples movimento das imagens basta para nos maravilhar: três carros, nenhum diálogo e a estrada em destaque, e ainda assim cada corte nos lembra o quanto o cinema pode ser extraordinário quando confia no poder das imagens.

— Gabriel Ritter

6. The Mastermind

Ao filmar um assalto como tantos outros, com a banalidade que convém, Kelly Reichardt não subverte a eficácia, mas sim o fracasso, e o que sobra ao protagonista James Mooney é a própria condição da existência. Mooney sente o ímpeto de poder mudar de vida enquanto a observa estética, apática, como ele mesmo é. Seu semblante melancólico não consegue sustentar falsas promessas sem um pingo de convicção, pautadas por frases genéricas como “eu fiz quase tudo por minha esposa e meus filhos”. Não existe estratégia, tampouco golpe, mas sim a fantasia que logo se reveste na capa da sobrevivência, porque nosso anti-herói é um carpinteiro iludido querendo roubar, e não um gênio do crime, profundo conhecedor de arte, querendo impressionar. O seu disfarce é involuntário e dura pouco tempo, mas o apuro do olhar de Reichardt permanece durante o filme todo.

— Pedro Daher

5. Presença

Partindo da ideia clássica de que o espectador ocupa uma posição semelhante à de um fantasma, Presença, de Steven Soderbergh, transforma esse princípio teórico em dispositivo narrativo ao colocar a câmera diretamente na perspectiva de uma entidade invisível que acompanha o cotidiano de uma família marcada por luto e conflitos internos. Filmado em longos planos-sequência com câmera na altura da cabeça e lente grande angular, o filme abandona sustos tradicionais e aposta em um terror psicológico e observacional, no qual a presença sobrenatural testemunha tensões familiares, favoritismos e ressentimentos que cercam a jovem Chloe. Aos poucos, a narrativa revela um perigo humano muito mais concreto: um rapaz aparentemente inofensivo que se mostra responsável pela morte de amigas da protagonista e tenta repetir o crime.

— Leonardo Frederico

4. Frankenstein

Dos ícones antigos às fissuras que ficaram por preencher, Frankenstein — e a visão de James Whale sobre o romance de Mary Shelley — é reimaginado por Guillermo del Toro numa narrativa em duas vozes: primeiro Victor e depois sua criatura. A nova versão escava a relação abusiva entre criador e criatura, transforma a origem do horror em uma história de violência, abandono e desejo, e contrapõe a monstruosidade humana à bondade possível da criação. Tudo isso é embalado por uma estética visual rica: combates coreografados, cenografia noir e imagens que encontram beleza na brutalidade. Ainda que, talvez, o encerramento que reconcilia as partes seja apressado, deixando um gosto de que a catarse merecia um desfecho mais trabalhado, isso não limita a existência do aprofundamento temático e do cuidado técnico.

— Leonardo Frederico

3. O Agente Secreto

Há, em O Agente Secreto, um entendimento de que uma narrativa não precisa, e nem deve, entregar tudo de cara para ser coesa. A montagem estabelece diferentes situações que já estão caminhando para a construção de um mesmo contexto geral, mas não há pressa alguma em estabelecer o sentido, ou seja, a direção, de cada cena. O filme brinca com a sua própria estrutura para encaixar a temática do resgate da memória em tempos de ditadura na ponte bem amarrada que conecta o Brasil dos anos 70 com as pesquisas relacionadas ao tema feitas no presente. Para isso, faz um desfile literal de blocos e corpos convivendo pelas ruas de Recife, por prédios históricos, fomentando alegorias, suscitando lendas urbanas, sempre com o sustento do que o cinema consegue registrar, que cabe no recorte e no olhar. Wagner Moura atua em três frentes: como o homem que sabia de tudo, o homem que tinha força para lutar, e o homem que está distante o suficiente para não poder ajudar. Brilha em todas.

— Pedro Daher

2. Marty Supreme

Marty Supreme desmonta a narrativa esportiva tradicional ao retratar Marty Mauser como um mesa-tenista que já é excelente no que faz. Assim, o filme não perde tempo em montagens de treinamento ou na evolução de seu protagonista, se centrando no prazer de acompanhar um jovem insuportavelmente talentoso e egoísta numa espiral de erros que, no fundo, são consequências de suas próprias ações. O conflito do filme nunca está no esporte em si, pois o que realmente se opõe ao sucesso de Marty são o seu ego desmedido, as pessoas que explora e a crença cega em um sonho americano que só beneficia a ele próprio, transformando cada pequena vitória em pretexto para ir atrás de enrascadas que sempre dobram a aposta para algo mais absurdo. Timothée Chalamet dá vida a um personagem que fascina e repele na mesma intensidade, e a direção de Josh Safdie aproveita o caos para mostrar que talento e caráter raramente andam juntos. A cena final, em especial, é conduzida como um ponto de ruptura: o mundo enfim impôs limites que Marty não conseguiu driblar, e ele se dá conta de que até o maior dos malandros precisa assumir responsabilidades que não podem ser negociadas.

— Gabriel Ritter

1. Pecadores

Inspirando-se na lenda de que Robert Johnson teria vendido a alma ao diabo para tocar blues, Pecadores, de Ryan Coogler, reinterpreta o mito dentro do contexto racista do sul dos Estados Unidos dos anos 1930. A história acompanha dois irmãos que retornam ao Mississippi para abrir um bar de música para a comunidade negra, mas o projeto acaba atraindo forças sobrenaturais quando vampiros chegam à região oferecendo imortalidade como fuga da violência e da segregação. Misturando terror, drama e ação, o filme constrói primeiro um retrato social marcado pelo blues, pela religião e pela opressão racial, para depois transformar essa realidade em horror literal. A música torna-se o centro simbólico da narrativa — ao mesmo tempo expressão cultural, resistência e instrumento de manipulação — enquanto o confronto final deixa uma crítica amarga: diante do racismo extremo, a própria ideia de se tornar um morto-vivo surge como uma metáfora perturbadora para escapar da realidade.

— Leonardo Frederico

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